Uma região entre a Ria e o Mar


O homem, nestes sítios, é quase anfíbio: a água é-lhe essencial à vida e a população filha da ria é condenada a desaparecer com ela. Se a ria adoece, a população adoece. A ria, como o rio Nilo, é quase uma divindade. Só ela gera e produz. Todos os limos, todos os detritos vêm carreados na vazante até à planície onde repousam».


Nota: Na figura (em cima): As proas dos moliceiros são verdadeiras obras de arte popular. São quase sempre pintadas pelos próprios pescadores, e representam santos ou outras imagens protectoras da embarcação.
Dorme-se ao largo, deitando-se a fateixa ou abica-se ao areal: um fogaréu, uma vara, a caldeirada ... Começam a luzir no céu e na ria, ao mesmo tempo, maríades de estrelas. Vida livre de alguns dias, de que fica um resíduo de beleza que nunca mais se extingue. É a ria também sítio para os que querem descobrir novas terras à proa do seu barco e para os que amam a luz acima de todas as coisas.
E é este o ponto da nossa terra onde ela atinge a suprema beleza. Na ria o ar tem nervos. A luz hesita e cisma e esta atmosfera comunica distinção aos homens e às mulheres, e até às coisas, mais finas na claridade carinhosa, delicada e sensível que as rodeia. A luz aqui estremece antes de pousar ... »
Na figura (em cima): Vista parcial do centro da cidade (Ria de Aveiro).
Quem, por uma calma e luminosa manhã de Agosto deixar a cidade, seguindo a estrada da Barra, ladeada de marinhas de um lado e da ria por outro e parando a meio do caminho terá a larga visão panorâmica de uma das mais admiráveis e soberbas paisagens do nosso país.

Na figura (em cima): Centro histórico da cidade de Aveiro.
Voltando-se para a cidade, por sobre os tabuleiros de sal, de águas polidas divididas como um enorme vitral, vê-la-á estender-se numa onda de casario acotovelado - traços brancos de paredes sob traços vermelhos dos telhados - acima dos quais se erguem perfis de torres e altos muros de edifícios públicos. Depois, lá para o fundo, uma enorme gama de verdes, campos imensos, com massa de arvoredos - choupos e salgueiros que formam as cortinas marginais do rio Vouga.

Na figura (em cima): Vista parcial da bela Ria de Aveiro.
De toda essa mole imensa de verdura surgem as brancas aldeias vizinhas aconchegadas aos campanários das igrejas. Ao fundo, onde o céu toca a terra, vêem-se as serranias majestosas de Arouca, das Talhadas e do Caramulo.

Na figura (em cima): Vista da Serra do Caramulo.
Na figura (em cima): Parque eólico na Serra de Arouca.
Voltando costas à cidade, terá diante de si as águas mansas da extensa ria, fulgurando por todos os lados; e, entre elas, as salinas, com os seus montes cónicos de sal dando a impressão de um grande acampamento de tendas brancas, espalhadas a perder de vistas pelos "polders».

Na figura (em cima): Centro da cidade, sempre com a Ria a marcar presença.
Para Sul vai o braço da ria que segue para Ílhavo e Vagos marginada pelos pinhais e campos arenosos da Gafanha; em sentido inverso, o outro braço que se alonga para as Duas Águas e vai dar a Barra, a poente a linha suave das dunas da costa, vaporizadas pela tremolina.
Na figura (em cima): A noite de Aveiro, junto à Ria.
Para Norte, a imensa ria da Torreira, onde o arquipélago das ilhas baixas formadas pelos aluviões: a Testada, o Amoroso, a dos Ovos, das Gaivotas do Monte Farinha, verdejando nas suas prias de juncos. E nesta vastidão de águas tranquilas, nesse gigantesco polvo fluvial que por todos os lados estende os seus fluidos tentáculos há sempre uma vela branca deslizando sobre as águas, como a asa de uma gaivota.
Na figura (em cima): As casas típicas dos pescadores de Aveiro.
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